Sonnet 1

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Sonnet 1

(by William Shakespeare)

From fairest creatures we desire increase,
That thereby beauty’s rose might never die,
But as the riper should by time decease,
His tender heir might bear his memory:

But thou, contracted to thine own bright eyes,
Feed’st thy light’s flame with self-substantial fuel,
Making a famine where abundance lies,
Thy self thy foe, to thy sweet self too cruel.

Thou that art now the world’s fresh ornament,
And only herald to the gaudy spring,
Within thine own bud buriest thy content,
And tender churl mak’st waste in niggarding:

      Pity the world, or else this glutton be,
To eat the world’s due, by the grave and thee.

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16jul/17
Sonnet 18

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Sonnet 18 - William Shakespeare

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Viagens na minha terra – Almeida Garrett

Busco agrupar e apresentar neste breve ensaio as impressões sobre o estudo dialético em Viagens na Minha Terra que coletei ao longo da leitura do livro e das aulas no curso de Narrativa em Língua Portuguesa. O delito da presunção seria imaginar ter algo novo sobre obra tão estudada e comentada quanto Viagens na Minha Terra, e isso por estudiosos detentores de muito mais conhecimento sobre o assunto do que eu jamais teria. Não seduzido pela ideia por trás de tal equívoco, que por certo não cometo, uso como base para meus comentários o conteúdo apresentado nas aulas daquele curso, principalmente, ainda que tenha feito várias leituras adicionais para ampliar meu entendimento sobre a questão da dialética nessa obra de Almeida Garrett.

Uma Visão da Dialética em Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett

 

Busco agrupar e apresentar neste breve ensaio as impressões sobre o estudo dialético em Viagens na Minha Terra (Garrett, 2005) que coletei ao longo da leitura do livro e das aulas no curso de Narrativa em Língua Portuguesa, ministrado pela Professora Luciana Salles, na Faculdade de Letras da UFRJ, durante o primeiro semestre de 2017. O delito da presunção seria imaginar ter algo novo sobre obra tão estudada e comentada quanto Viagens na Minha Terra, e isso por estudiosos detentores de muito mais conhecimento sobre o assunto do que eu jamais teria. Não seduzido pela ideia por trás de tal equívoco, que por certo não cometo, uso como base para meus comentários o conteúdo apresentado nas aulas daquele curso, principalmente, ainda que tenha feito várias leituras adicionais para ampliar meu entendimento sobre a questão da dialética nessa obra de Almeida Garrett.

Para começar, convém que notar que a dialética à qual me refiro é a proposta pelo filósofo alemão Georg Hegel (1770-1831). Esta difere da dialética proposta por Platão em especial no que diz respeito ao seu terceiro movimento. Na dialética de Platão, os atores dos lados oponentes eram pessoas (Sócrates e seus interlocutores), ao passo que em Hegel essa premissa podia ser desprezada, dependendo do assunto em discussão (Maybee, 2016). Para Platão, os movimentos dialéticos compreendiam (a) tese, uma declaração argumentativa em defesa de uma verdade; (b) antítese, o contra-argumento; e (c) síntese, uma resolução expressa em uma verdade absoluta. Já em Hegel, o terceiro movimento apresenta uma sofisticação em relação a Platão.

Hegel criticava a dialética de Platão por ser arbitrária e cética em sua motivação e, portanto, incapaz de produzir uma verdade científica genuína (Maybee, 2016). O fulcro de tal crítica parece ser a síntese, que pressupõe a possibilidade de se alcançar uma resolução para o problema proposto pelas partes oponentes na tese e na antítese. A visão de Hegel leva em consideração as características do mundo no século XIX, no qual a síntese platônica seria uma ideia utópica.

Os três momentos na dialética de Hegel compreendem (a) o momento de estabilidade da definição e determinação de formas e conceitos, o ser, em substituição à tese de Platão; (b) o momento de instabilidade dialética, negativamente racional, o não-ser, em substituição à antítese platônica; e (c) o momento positivamente racional, ou especulativo, o vir a ser, em oposição à síntese (Maybee, 2016). O terceiro movimento, para Hegel, é mais um momento de conciliação das premissas do que o de um veredicto, é o momento em que as partes se mesclam para criar uma visão mais sofisticada e inclusiva das coisas que são no vir a ser.

Talvez se possa argumentar que a dialética de Hegel busca um resultado mais descritivo, admitindo a possibilidade e buscando um meio-termo que transcende as premissas e abre caminhos e espaços para um processo contínuo de significação, reflexo e ressignificação. Platão, por outro lado, oferece uma visão mais prescritiva, restritiva e limitada, se tomarmos em conta a aplicação anacrônica de sua dialética ao mundo do século XIX que requeria abertura maior, se é que haveria de ser compreendido. Dito de outro modo, seria como se Platão prescrevesse ao mundo como este deveria ser, em preto e branco, ao passo que Hegel estivesse mais preocupado com como as coisas no mundo poderiam ser e tentasse descrever isso valendo-se de uma escala cromática. A dialética platônica estaria para a filosofia como a gramática prescritiva está para a língua, mas a de Hegel como a gramática descritiva.

Quais são alguns dos traços da dialética hegeliana em Viagens na Minha Terra? Antes buscar uma resposta para essa pergunta, devo admitir que minha leitura da primeira dúzia de capítulos descobria pouco (ou nada) dos significadosFoto cuidadosamente incrustrados e, para mim, ocultos nessa obra-prima de Almeida Garrett. Dentre os motivos para isso, o principal certamente foi minha ignorância a respeito da história de Portugal, particularmente sobre a guerra civil que teve lugar naquele país no período de 1828-34. A percepção desse fato me leva a racionalizar que, desprovido desse conhecimento, o leitor poderia facilmente concluir que a leitura não vale o esforço. Essa foi a conclusão a que chegou a pessoa que registrou suas impressões na última página do livro usado que adquiri para leituras durante o curso: “é o livro mais chato que eu já tive que ler, que horror”.

O aspecto dialético de Viagens na Minha Terra, que dificilmente poderia ser compreendido por um leitor mal informado sobre a história de Portugal, percorre a trama inteira do romance. Posto que a dialética tem certo grau de relação com a tomada de decisões, antes buscar na trama o reflexo da dialética, pensemos nas decisões do autor pertinentes ao gênero literário. Vimos que o exercício da dialética hegeliana busca respostas alternativas, inclusivas e inusitadas, se comparado ao exercício da dialética platônica. Ao invés de uma verdade absoluta, essa dialética procura na mescla das premissas uma resposta verdadeira, no sentido científico da palavra, e suficiente para dar continuidade ao processo dialético em um novo ciclo, como que num movimento espiral capaz de elevar o pensamento e transportar o pensador.

Viagens na Minha Terra é um romance. Mas será que é apenas um romance? Que dizer do discurso político, da história de amor, do diário de bordo (a narrativa descritiva da viagem) e das citações literárias? Todos esses gêneros coexistem mesclados, de modo que o volume poderia ser logicamente acomodado ao mesmo tempo nas prateleiras de Geografia, de Sociologia, de História Política, e, ainda, de Crítica Literária de uma biblioteca. O que Garrett parece indicar ao leitor é que naquele momento histórico era lícito, válido e necessário o questionamento do gênero e a exploração de alternativas fora do modelo aristotélico. Com isso, Garrett não somente mesclou o ser e o não-ser de gênero de sua criação, mas conseguiu uma resposta com potencial para alimentar um novo ciclo dialético – evidente, por exemplo, nesta reflexão.

Argumentei em favor da importância de se ter conhecimento, ainda que superficial, da história de Portugal como auxílio indispensável a uma boa compreensão e desfrute do livro Viagens na Minha Terra. No entanto, não se presta este ensaio a fornecer fatos históricos, bastando para o que pretendo mencionar o seguinte. A Guerra Civil Portuguesa (1828-34) que assolava o país punha em lados opostos apoiadores de D. Pedro IV e de D. Miguel I, em sua disputa pela coroa portuguesa. O absolutista D. Miguel I e seus apoiadores (conservadores), os latifundiários e a Igreja Católica, viam em D. Pedro IV um monarca ilegítimo e lutavam contra ele e seus apoiadores liberalistas. Por volta de 1833, D. Miguel estabeleceu sua corte em Santarém, local onde se passa a maior parte da trama de Viagens na Minha Terra. A liberalidade da ala pedrista era materialista no sentido de ser mais generosa para com as classes menos favorecidas da sociedade portuguesa. A ala miguelista buscava perpetuar o dominante espírito austero e hirto, e a concentração de poder pelas classes elevadas daquela sociedade e da Igreja, que ofereciam apoio a D. Miguel I.

 

Guerra Civil Portuguesa – Figura 2 – (Honoré Daumier [Public domain], 1833)

Essas questões políticas e suas partes e contrapartes ecoam em diferentes instâncias do enredo. Frente a frente estão o material e o espiritual, os conservadores e os liberais, a igreja e o povo comum, a guerra e a paz, a pátria e o exílio, o amor fraternal e o amor romântico, a cegueira e a visão, o velho e o novo. Ora as personagens, ora as instituições, assumem esses rótulos que não são estanques. Por exemplo, no capítulo 2, ao discorrer sobre o progresso, conta o narrador que um filósofo de além Reno descobriu

Dois princípios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender à parte material e terrena desta vida (…) hirto, seco, duro, inflexível e que pode bem personalizar-se pelo famoso mito do cavaleiro da mancha, D. Quixote – o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, (…) Sancho Pança. -- (Garrett, 2005, p. 19)

Essa descrição do espiritualista remeteria o leitor imediatamente à figura de Frei Dinis, uma vez alcançada sua apresentação, ao passo que a do materialista, nos remeteria a Carlos em sua rejeição das coisas em que acreditam Frei Diniz e sua avó. Um pouco adiante, o narrador se dá conta de uma “coerência inexplicável”: a sociedade é materialista e a expressão da sociedade é exacerbadamente espiritualista. “Sancho rei de fato, Quixote rei de direito” (Garrett, 2005, p. 26). Com isso, o autor deixa soar um bordão recorrente ao longo da narrativa, a saber, a impossibilidade de compreender o mundo humano em termos binários. É significativa a citação de Shakespeare, em Hamlet: “There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy[1]” (pp. 25-26). Recorrer à dialética platônica seria apelar para uma simplificação inadequada para uma racionalização do ser. Óbvio está que a compreensão dessas coisas não deveria ser tomada como óbvia.

Quando exércitos inimigos acampam nas cercanias de Santarém, o que historicamente ocorre por volta de 1833, Joaninha personaliza o terceiro movimento dialético de conciliação das partes nos momentos precedentes. Na noite em que primeiro encontra Carlos depois de seu regresso do exílio, os dois são interpelados por soldados que querem saber quem vem lá. Com sagacidade e presença de espírito, Joaninha traça um plano, dá instruções a Carlos, que nesse momento se retrai, e tranquiliza os soldados: “Joaninha! Sou eu, camaradas; sou eu!” (p. 120). A “Menina dos rouxinóis” tem carta branca nos campos de batalha, enquanto Carlos é atingido por um tiro disparado por um soldado de seu próprio regimento. Essa personificação da conciliação se contrasta nitidamente com a “verdade absoluta”, objeto da busca na dialética platônica.

O relacionamento de Carlos com Joaninha é outra instância em que ecoa a dialética hegeliana. Carlos, ao regressar de seu exílio, é surpreendido pela beleza da prima e pelos sentimentos que por ela descobre que brotam em si mesmo. Casado com Georgina, Carlos fica paralisado entre dois amores. Se vistas como símbolos, Georgina, da Europa culta em sua elevada posição social, Joaninha, da terra natal não possuidora do requinte da outra, mas boa, pura, genuína e perto do coração, estabelece-se um novo embate: abraçaria Portugal seus valores e sua terra, ou aceitaria a influência requintada daquela Europa? Novamente, a resposta não precisa implicar uma cisão, binária por natureza. Carlos, em resultado de sua inércia, acaba por perder Joaninha e por não reter Georgina. Esse resultado das mãos vazias mescla a negação das duas num jogo interminável de causa e efeito.

A dialética aparece também no âmbito diacrônico da narrativa. Frei Dinis, antes de se juntar ao baixo clero da Ordem de São Francisco, teve uma vida no outro extremo. Carlos, o jovem idealista que por seus ideais foi levado a lutar em favor dos liberalistas, se ajustou aos moldes daquilo contra que lutara: “engordou, enriqueceu, e é barão. (…) É barão, e vai ser deputado qualquer dia” (p. 249).

Todos esses ecos, e tantos outros aqui não incluídos, mas igualmente importantes, ao longo da trama em Viagens na Minha Terra são fios que o autor usa para tecer um casulo de transformação. Não se trata de metamorfose única, como ocorre de uma lagarta para uma borboleta. Antes, é um processo contínuo, não estanque, de progresso no sentido de movimento; é a evolução (sem noção de valor) do ser humano em busca de autoconhecimento. A questão levantada no capítulo 2, a respeito do progresso em sua relação com o espiritual e o material, é equacionada no estágio vir a ser da dialética. Isso se revela em um padrão que pode ser observado ao longo do livro.

Obviamente, o autor tinha um propósito ao elaborar tal estrutura. O mundo no século XIX experimentava transformações que requeriam ajustes no modelo de pensamento para sua compreensão. As citações e menções que Garrett faz de Camões, em Os Lusíadas, de Cervantes, em D. Quixote, e de Shakespeare, em Hamlet, evidenciam que já no século XVI essa necessidade de ajustes era percebida e tratada pela Literatura. A então prevalente visão dicotômica e maniqueísta, não obstante esforços filosóficos e literários, ainda prevalece. A busca por uma verdade absoluta que exclui a possibilidade de conciliação das partes em litígio não pode produzir bons e duradouros resultados, mas tem custado um sem número de vidas ao longo dos séculos. Adotar essa visão é como vestir uma roupa que não nos cabe mais: tolhe os movimentos, obstrui a circulação e, cedo ou tarde, expõe nossas vergonhas.

A representação diacrônica da mudança num mesmo indivíduo reforça a não estanqueidade do processo vir a ser. Carlos saiu, como dito, de idealista a barão. Frei Dinis, de homem secular a sacerdote. Georgina, de mulher da sociedade a abadessa. Como em um jogo de xadrez, a configuração das peças no tabuleiro requer a cada novo movimento uma alteração correspondente, até mesmo a alteração radical da estratégia, para manter o jogo e proteger as peças mais preciosas, ainda que para isso se percam os peões, cavalos e bispos. Necessidades surgem, circunstâncias se alteram, e o ser tem de vir a ser, tem de se adequar, de se redescobrir através da reflexão.

Viagens na Minha Terra, será um livro insípido para qualquer leitor que permaneça no raso do texto pelo texto. A percepção das estratégias do artista embutidas na estrutura narrativa e na trama propriamente ditas e, especialmente, das questões humanas que transcendem a trama e a narrativa abordadas pelo não dito, mas sugerido, pode descortinar um quadro sobre o qual muito justa seria qualificação de obra-prima.

Referências

Garrett, A. (2005). Viagens na Minha Terra. São Paulo, SP, Brasil: Martin Claret.

Honoré Daumier [Public domain], v. W. (1833). Kssssse! Pédro – Ksssse! Ksssse! Miguel! Chez Aubert Galerie, Paris. Acesso em 09 de 07 de 2017, disponível em http://purl.pt/5206/3/

Maybee, J. E. (03 de 06 de 2016). Hegel’s Dialectics. (E. N. Zalta, Ed.) Acesso em 25 de 06 de 2017, disponível em The Stanford Encyclopedia of Philosophy: https://plato.stanford.edu/archives/win2016/entries/hegel-dialectics/

Vilela, W. (2017). Sobre Viagens na Minha Terra. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Nota: [1] “Há mais coisas no céu, há mais na terra, do que sonha a tua vã filosofia” (Garrett, 2005, pp. 26, nota de rodapé).

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The Raven

O Corvo

“O Corvo é um poema narrativo do escritor americano Edgar Allan Poe. O poema, publicado em em 1845, se destaca por sua musicalidade, linguagem estilizada e atmosfera sobrenatural.

O poema conta a misteriosa história da visita de um corvo falante a um amante transtornado, induzindo a lenta queda do homem na loucura. O amante lamenta a perda de sua amada, Leonora. Pousado sobre um busto de Palas, o corvo parece instigar a perturbação mental do viúvo pela constante repetição de “nunca mais”. O poema contém numerosas referências folclóricas, mitológicas, religiosas e clássicas.” — Fonte: Wikipedia.

Protegido: Soneto XVII – Pablo Neruda