Todos sabemos que o desenvolvimento do câncer está relacionado com alguma medida de sorte, os genes que herdamos, e estilo de vida, as escolhas que fazemos cada dia sobre dieta e exercícios, fumar e beber. Um estudo recente publicado pela Cancer Science sugeriu que o câncer pode ser muito mais uma questão de “má sorte”, ou mutação randômica, do que qualquer outra coisa, algo que foi largamente interpretado como significando que  nenhuma quantidade de exercícios ou couve  pode impedir o que está destinado a acontecer, ou o que ocorre ao acaso em nossos genes.

No entanto, um novo estudo publicado pela Nature sugere que a teoria da “má sorte” do câncer talvez não seja tão exata, afinal de contas. Uma reanálise dos dados indica que o câncer pode estar muito mais sob nosso controle do que fomos levados a acreditar em tempos recentes.

Yusuf Hannun, autor desse estudo,  disse que “muitos cientistas discordaram da teoria da “má sorte”, ou “mutação randômica”, mas não apresentaram uma análise alternativa para quantificar a contribuição de fatores de risco externos. Nosso trabalho apresenta uma análise alternativa  pela aplicação de quatro diferentes abordagens.”

A equipe examinou como as células tronco se dividem em vários tipos de tecido, incluindo pulmonar, pancreático e cólon. Eles observaram que tecidos com padrões similares de divisão de células tronco deveriam apresentar riscos similares de câncer. Mas isso não aconteceu: eles calcularam que apenas cerca de 10% de fatores intrísecos (genéticos) foram responsáveis pelos riscos de uma pessoa desenvolver diversos tipos de câncer. Isso sugere que fatores externos devem estar em jogo além dos genes, sendo responsáveis pela maior parte do risco.

Eles também examinaram as “digitais” moleculares de diversos tipos de câncer e descobriram que a maior parte dos cânceres foi causada por mudanças moleculares disparadas por fatores externos, em comparação com os internos. Foram os casos dos cânceres colorretal, pulmonar, bexiga, e tireóide. É simplismente improvável que mutações randômicas ocorressem em quantidade suficiente para causar câncer. Fatores externos devem desempenhar um papel principal.

É importante ter em mente que há estudos que revelam que o “comportamento” do risco de câncer varia geograficamente. Por exemplo, as pesquisas mostram que pessoas que se mudam de uma  área com menor incidência de câncer para outra com maior incidência tendem a apresentar o mesmo índice de câncer da nova área. O mesmo se dá na situação contrária: mudar de uma área com alto índice de câncer para outra área com menor índice pode reduzir o risco de alguem desenvolver a doença. Além disso, o índice de câncer tem aumentado em décadas recentes, o que leva os autores a afirmar que efeitos ambientais ou estilo de vida podem ser gatilhos mais importantes que mutações geneticas.

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Em conclusão, a equipe conclui que provavelmente apenas entre 10% e 30% dos cânceres podem ser atribuídos à “má sorte”. Isso significa que uma porcentagem muito maior dos cânceres pode ser atribuída a “estilo de vida” – resultado das atividades que fazemos ou deixamos de fazer em nossa vida diária, e do ambiente em que vivemos.

“Nossas descobertas indicam que fatores externos são muito importantes na patogênese do câncer. Assim, devem ser redobrados os esforços em estudos  destinados à definição de fatores (tais como carcinogênese, vírus, exposição) que aumentam a incidência de câncer”, disse Hannun. “O estudo tem importante impacto em políticas de saúde pública e em abordagens”.

No mínimo, a pesquisa guia a discussão sobre o câncer de volta a outra direção, para mais distante da ideia de que o câncer é na maior parte resultado de “má sorte” e está fora de nosso controle. Sugere que talvez estejamos na direção, afinal de contas. Comer bem, fazer exercícios, não fumar, beber com moderação e tentar manter-se num peso saudável são modos testados e aprovados de ter uma vida saudável. Com sorte, isso é verdade em relação ao câncer e quase qualquer outro problema de saúde.

Por Alice G. Walton
Fonte: Forbes Pharma & Healthcare
Traduzidor por: Wisley Vilela