By Charles Levy from one of the B-29 Superfortresses used in the attack. - http://www.archives.gov/research/military/ww2/photos/images/ww2-163.jpgNational Archives image (208-N-43888), Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=56719

A percepção que temos de mundo dá origem aos conflitos. Quanto maiores as diferenças perceptivas, tanto maiores os conflitos. Uma característica básica do ser humano é a tendência de fugir mentalmente do que percebe como dano, sofrimento ou infortúnio. A chuva de granizo talvez quebre o telhado de barro de meu vizinho, mas não cairá sobre o meu, que é de vidro. Somos assim e parece estar fora de nosso alcance mudar esse comportamento.

Por outro lado, aquilo que percebemos como ameaça pode provocar uma ação retaliadora antes mesmo de qualquer ato concreto, ainda que apenas verbal, atrelado à fantasia de ameaça criada pela imaginação. Pela fala, então, se promove a paz, ou se nutre o ódio, a semente da guerra. Isso talvez explique embates inexplicáveis, atrocidades sem sentido, ataques terroristas suicidas, isso talvez explique os pés da cadeira no teto da sala.

Há dois tipos de diferenças: as harmônicas e as dissonantes. A percepção da diferença harmônica se dá quando se vê no outro a beleza que atrai, e não falo de beleza física, embora essa esteja incluída. Falo da beleza que preenche espaços mentais, que nutre o pensamento e amplia horizontes. A diferença harmônica é a que leva pessoas comuns a terras distantes em busca das aventuras do descobrimento. No extremo oposto, a diferença dissonante provoca desconforto, a sensação de que a estrutura que dá suporte ao que somos pode desabar a qualquer momento. Essa diferença é a que, em demonstração branda, leva multidões protestantes em manifestações desordenadas feitas por pessoas cheias de diferenças menores sobrepujadas pela força polar de sua perspectiva, mas que em exibições exacerbadas posta exércitos cheios de homens que escolheriam a paz, se poder de escolha tivessem, em franco combate a serviço da morte.

Diferenças harmônicas se associam a tempos de bonança. As dissonantes surgem em tempos de crise. Não saber administrar as diferenças é a causa básica da perpetuação de problemas crônicos e do constante surgimento de novas chagas no tecido da sociedade humana. Há um câncer que dissolve órgãos e esperanças para se construir cada vez mais forte sobre um tecido que, uma vez exaurido, condena à morte o próprio câncer. Esse câncer é o mesmo ódio que em seis de agosto de 1945 desintegrou instantaneamente dezenas de milhares de corpos e condenou à morte centenas de milhares que desavisadamente acordavam para o caos, ou inexistência, que Nagasaki e Hiroshima se tornariam ao entrar para a história.

A gente não aprende do passado. Há um manto de ignorância que as novas gerações não são ensinadas a desvelar, talvez nem queiram aprender.  Os fios de nossos corpos arrepiam com a impiedade da Alemanha nazista, com as atrocidades da inquisição católica, com a intolerância assassina dos romanos, com a violência e crueldade dos assírios. Mas não conseguimos erradicar a semente que produziu e continua a produzir o mesmo amargo e venenoso fruto.

Negar que precisamos de ajuda de cima é cobrir-se daquele manto de ignorância e apostar as verdes fichas da esperança todas no conto da carochinha.

 

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