Black background

O texto cuja tradução se lê abaixo, escrito por Ted Snider, foi publicado pelo Consortiumnews.com em 30 de março de 2016, enquanto o Brasil se debate, como quem se afoga, numa crise que chamam corretamente de política e econômica, mas que é primariamente moral. Não se discutem aqui ideologias políticas, mas sintomas (no mínimo) graves da necrose que aflige os tecidos da sociedade humana. Não é algo novo, nem é algo localizado. Faz parte da história humana desde tempos imemoriais onde quer que haja poder em jogo, o jogo do poder.

Não é por ser antigo e generalizado que o choque se neutraliza. A morte também existe desde sempre, mas cada novo fim traz consigo um choque de ruptura. Além dos golpes camuflados, há lobos em pele de ovelha. Sem mais delongas, ao texto.


 

O Brasil e outros governos progressistas da América Latina estão na defensiva enquanto movimentos políticos apoiados pelos Estados Unidos aplicam táticas de “golpe silencioso” para desacreditar e remover líderes problemáticos, escreve Ted Snider.

Por Ted Snider

O Brasil mantém seus golpes silenciosos (no mínimo, mais silencioso do que muitos outros países latino-americanos). Durante a Guerra Fria, deu-se muito mais atenção às mudanças abertamente expostas por regimes militares, muitas vezes apoiadas pela CIA, tais como a derrubada de Jacobo Arbens na Guatemala, em 1954, a deposição de Salvador Allende no Chile, em 1973 e até mesmo o golpe “guerra-suja” na Argentina em 1976, do que ao golpe de 1964 no Brasil, que removeu o presidente João Goulart do poder.

Noam Chomsky chama o governo Goulart de “levemente socialdemocrata”. Ele foi substituído por uma ditadura militar brutal.

Em tempos mais modernos, os golpes latino-americanos têm abandonado a imagem de golpe militar escancarado, ou de ações encobertas da CIA. Em vez de tanques nas ruas e generais de aparência sinistra rondando oponentes políticos, os golpes de hoje são mais parecidos às “revoluções coloridas” usadas na Europa Oriental e Oriente Médio em que esquerdistas, socialistas ou governos vistos como antiamericanos foram alvejados com táticas de “força sutil”, como transformações econômicas, propaganda sofisticada e desordem política, muitas vezes financiados por organizações não governamentais “pró-democracia” (ou ONGs).

Essa estratégia começou a tomar forma no final da guerra fria, quando o programa da CIA de armar os rebeldes Nicaraguenses Contra abriu caminho para a estratégia econômica dos Estados Unidos de levar a Nicarágua Sandinista à extrema pobreza, combinada com a estratégia política de gastos dos Estados Unidos com ONGs eleitorais financiadas pela National Endowment for Democracy (legado nacional para a democracia) estabelecendo o cenário para a derrota política dos Sandinistas, em 1990.

Durante a administração Obama, essa estratégia de “mudança não violenta de regime” na América Latina ganhou favor com apoio decisivo da secretária de Estado, Hillary Clinton, à deposição do presidente hondurenho Manuel Zelaya, que havia se empenhado por uma política doméstica progressiva que ameaçava os interesses da oligarquia tradicional da nação central americana e de investidores estrangeiros.

Ao contrário dos golpes ao estilo militar anteriores, os golpes “silenciosos” nunca tiram suas máscaras nem se revelam como golpes de estado. São golpes disfarçados de insurgimentos populares atribuídos à má gestão do governo alvejado. De fato, os principais canais de mídia dos Estados Unidos farão de tudo para negar que esses golpes são mesmo golpes.

Os novos golpes são camuflados em um de dois disfarces. No primeiro, uma minoria direitista que perdeu nas urnas vai alegar “fraude” e levar sua mensagem para as ruas como uma expressão da “democracia”; no segundo tipo, uma minoria camufla seu poder de manipulação em artifícios legais ou constitucionais do legislativo ou dos tribunais, como aconteceu no caso da deposição do presidente Zelaya, em Honduras em 2009.

Ambas as estratégias implantam acusações de corrupção ou de intenção ditatorial contra o governo no poder, denúncias que são trombeteadas por agências de notícias de propriedade de direitistas e por ONGs financiadas pelos Estados Unidos e que se apresentam como “promotoras da democracia”, buscando um “bom governo” ou defendendo os “direitos humanos”. Há hoje no Brasil sinais de ambas estratégias.

Boom do Brasil

Primeiro, alguma informação de fundo: Em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), chegou ao poder com 61,3% dos votos. Quatro anos mais tarde, ele foi reeleito com esmagadores 60.83% dos votos. O governo de Lula foi marcado por um crescimento extraordinário na economia do Brasil, por reformas sociais históricas e por investimentos em infraestrutura doméstica.

Em 2010, no final da Presidência de Lula, a BBC fez um relato típico de seus êxitos: “Estatísticos dizem que a elevação de renda colocou mais de 29 milhões de brasileiros na classe média durante os oito anos de mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-sindicalista eleito em 2002. Algumas dessas pessoas são beneficiárias de ajudas do governo e outras de uma consistente melhora no sistema de educação. Os brasileiros estão ficando mais tempo na escola, o que lhes assegura melhores salários, o que aumenta o consumo, o que, por sua vez, alimenta uma economia doméstica em expansão.”

No entanto, no Brasil, um presidente reeleito precisa deixar o poder por um pleito completo antes de poder se candidatar novamente. Assim, em 2010, Dilma Rousseff foi escolhida sucessora de Lula. Ela venceu com 56,05% dos votos. Em 2014, quando Dilma Rousseff venceu a reeleição com 52% dos votos, a oposição de direita do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB) entrou em pânico.

Esse pânico não era apenas porque a democracia estava falhando em promover os objetivos da direita, nem por causa da quarta vitória consecutiva do PT, partido de ala mais esquerdista. O pânico veio do desespero, depois que o PT teve êxito em se manter no poder enquanto Lula estava constitucionalmente impedido de se candidatar, quando ficou claro que ele provavelmente voltaria como candidato do PT à presidência em 2018.

Afinal, Lula deixou o cargo com 80% de aprovação. Pareceu que a democracia nunca funcionaria para o PSDB. Então, a cartilha “golpe silencioso” foi aberta. O primeiro movimento da oposição foi se recusar a aceitar os resultados das urnas, apesar de nunca apresentar uma queixa plausível. O segundo movimento foi tomar as ruas.

Uma minoria bem organizada e bem financiada, cujos números foram demasiado pequenos para prevalecer nas urnas, ainda pode fazer muito barulho e causar ruptura nas ruas, fabricando a aparência de um poderoso movimento democrático. Além disso, esses protestos receberam cobertura favorável dos meios corporativos de comunicação no Brasil e nos Estados Unidos.

O próximo passo foi alegar corrupção e iniciar o processo para dar um golpe constitucional sob a forma de impeachment contra a Presidente Dilma. A corrupção, claro, é uma arma eficaz nesse arsenal porque há sempre alguma corrupção em governos, que pode ser exagerada ou ignorada de acordo com o que ditam interesses políticos.

Alegações de corrupção também podem ser úteis para macular políticos populares, fazendo-os parecer estar apenas interessados em encher seus bolsos, uma linha de ataque especialmente eficaz contra líderes que parecem estar trabalhando em benefício do povo. Entretanto, a corrupção dos políticos favorecidos pelos Estados Unidos que estão enchendo seus próprios bolsos de forma muito mais egrégia é frequentemente ignorada pela mesma mídia e ONGs.

Remoção de Líderes

Em anos recentes esse tipo de golpe “constitucional” foi aplicado em Honduras para remover o democraticamente eleito Presidente Zelaya. Ele foi sequestrado a mão armada e levado para fora de Honduras num sequestro travestido de obrigação constitucional ordenada por um tribunal depois de Zelaya anunciar um plebiscito para saber se os hondurenhos queriam uma nova constituição.

A instituição política hostil em Honduras traduziu falsamente esse anúncio como se fosse uma intenção inconstitucional com o objetivo de buscar a reeleição, ou seja, ardil de abuso do poder. A possibilidade de concorrer a um segundo mandato seria considerada nas discussões constitucionais, mas nunca foi anunciada como a intenção de Zelaya.

Mesmo assim, a Suprema Corte declarou que o plebiscito do presidente era inconstitucional e os militares sequestraram Zelaya. A Suprema Corte acusou Zelaya de traição e anunciou um novo presidente: um golpe com disfarce constitucional que foi condenado por muitas nações latino-americanas, mas que foi acolhido pela então secretária de Estado, Hillary Clinton.

Esse padrão de golpe reapareceu no Paraguai quando Frederico Franco, da ala direitista, tomou a presidência de Fernando Lugo, mais inclinado à esquerda, no que tem sido chamado de golpe parlamentar. Como em Honduras, o golpe foi dado de modo a parecer uma transição constitucional. No caso do Paraguai, a oposição da ala direitista oportunisticamente se valeu de uma escaramuça sobre uma disputa de terras que deixou pelo menos onze mortos, para culpar injustamente o Presidente Lugo pelas mortes. A oposição cassou seu mandato depois de dar-lhe apenas 24 horas para preparar sua defesa e apenas duas horas para apresentá-la.

O Brasil está manifestando o que poderia se tornar o terceiro exemplo desse tipo de golpe na América Latina durante a administração Obama.

A operação Lava Jato começou no Brasil em março de 2014 como uma investigação policial e judicial de corrupção no governo. Geralmente se traduz Lava Jato para o inglês como “Car Wash” (lava carro), mas parece que é melhor compreendido como “lavagem rápida” com a conotação de corrupção e lavagem de dinheiro.

A operação Lava Jato começou com a descoberta de suborno político e desvio de dinheiro, girando em torno da gigante petrolífera do Brasil, a Petrobras. A sujeira – ou influência política de compra – que precisava lavagem impregna todos os partidos políticos com maior projeção em um sistema corrupto, segundo Alfredo Saad Filho, professor de Economia Política na SAOS University, de Londres.

Mas a direita política do Brasil sequestrou a investigação e transformou o que seria uma investigação judicial legítima em um atentado de golpe político.

De acordo com Boaventura de Sousa Santos, Professor de Sociologia da Universidade de Coimbra, em Portugal, e distinto jurista erudito na Universidade de Wisconsin-Madison, embora a operação Lava Jato “envolva líderes de vários partidos, o fato é que a operação Lava Jato – e seus cúmplices de mídia – mostram grande tendência de incriminar os líderes do PT (Partido dos Trabalhadores) com propósito agora inconfundível de causar o assassinato político da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula”.

Boaventura chamou a redefinição de objetivos políticos da investigação judicial de “espalhafatosa” e “crassamente seletiva”, e denuncia toda a operação em sua forma remodelada como “flagrantemente ilegal e inconstitucional”. Alfredo Saad Filho disse que o objetivo é “infligir dano máximo” ao PT e “blindar outros partidos”.

Neutralizar Lula

O objetivo final do golpe em disfarce democrático é neutralizar o Lula. Acusações criminais — que Alfredo descreve como “exageradas” — foram apresentadas contra Lula. Em 4 de março ele foi detido para interrogatório. Em seguida, a Presidente Dilma nomeou Lula como seu Chefe de Gabinete, um movimento que a oposição viu como uma tentativa de usar o status ministerial para protegê-lo de acusação por qualquer órgão que não seja o Supremo Tribunal.

Mas Alfredo diz que a representação é baseada numa conversa entre Dilma e Lula gravada ilegalmente e ilegalmente vazada. A conversa, diz Alfredo, foi desvirtuada para que pudesse ser apresentada como ‘prova’ de conspiração para proteger Lula”. Boaventura acrescentou que “o gabinete da presidente Dilma Rousseff decidiu incluir Lula entre seus ministros. É seu direito de fazê-lo e nenhuma instituição, muito menos o judiciário, tem o poder de impedi-lo.”

Nenhum “crime presidencial que justifique um impeachment foi encontrado”, de acordo com o Alfredo.

Como em Honduras e no Paraguai, uma oposição que não confia em sua habilidade de substituir o governo eleito através de instrumento democrático se voltou para meios antidemocráticos que ela espera conseguir disfarçar em judiciais e constitucionais. No caso do Brasil, o professor Boaventura chama esse golpe disfarçado em democrático um “golpe político-judicial”.

Tanto em Honduras quanto no Paraguai, o governo dos Estados Unidos, embora insistindo publicamente não estar envolvido, sabia no privado que as maquinações eram de golpe. Menos de um mês após o golpe de estado hondurenho, a Casa Branca, o Departamento de Estado e muitos outros receberam um telegrama claro da embaixada dos Estados Unidos em Honduras chamando o golpe de golpe.

Intitulado “Aberto e Fechado: o Caso do Golpe Hondurenho”, a embaixada disse que “não há dúvidas de que militares, a Suprema Corte e o Congresso Nacional conspiraram em 28 de junho no que constituiu um golpe ilegal e inconstitucional”. O telegrama acrescenta que “nenhum dos (…) argumentos [dos defensores golpe] tem qualquer validade substantiva sob a Constituição hondurenha”.

Quanto ao Paraguai, telegramas da embaixada dos Estados Unidos afirmaram que a oposição política de Lugo tinha como objetivo “crescer sobre quaisquer erros de Lugo”, “depor Lugo e assegurar sua própria supremacia política”. O telegrama observou que, para atingir seu objetivo, eles estão dispostos a depor Lugo “legalmente, mesmo que seja por motivos espúrios”.

O professor Boaventura disse que o imperialismo dos Estados Unidos voltou ao seu “quintal” latino-americano sob a forma de projetos de desenvolvimento de ONGs, “organizações cujos gestos em defesa da democracia são apenas uma fachada para ataques agressivos encobertos e provocações dirigidas a governos progressistas”.

Ele disse que o objetivo dos Estados Unidos é “substituir governos progressistas por governos conservadores, mantendo a fachada democrática”. Ele afirmou que o Brasil está inundado em financiamentos de fontes americanas, incluindo “organizações relacionadas com a CIA”. (A National Endowment for Democracy foi criada em 1983, em parte para fazer um pouco abertamente o que a CIA anteriormente fazia em secreto, ou seja, financiar movimentos políticos que se curvam à vontade de Washington.)

A História vai dizer se o golpe silencioso do Brasil terá êxito. A História talvez revele também que conhecimento e envolvimento o governo dos Estados Unidos pode ter nesse golpe.


Ted Snider escreve sobre análise de padrões na história e política externa dos Estados Unidos.


Nota: As ideias e conceitos expostos no texto acima não necessariamente refeletem o pensamento de seu tradutor.

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